| Ledo Ivo |
Jorge Schutze
A princípio a relação corpo e poesia é bastante óbvia. A construção/elaboração da linguagem articulada em formatos estéticos, seja pela fala, seja para cifragem de códigos, se relaciona com a emergência do corpo (já que matéria), por corporificar o que apreende emocionalmente do ambiente, no deleite de ser no/com o ambiente, ao expressar-se. Uma forma de dizer que a linguagem poética é o modo de nos tornarmos um no/com o todo. A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade.
O corpo agencia suas propriocepções em linguagem. Ao dizermos: no humano tudo é linguagem, algo, no entanto, fica em espreita. A função mais imediata do corpo é a comunicação. O próprio estar do corpo no ambiente já é comunicação. Já há uma relação explícita de comunhão entre os fenômenos da natureza corporal e os fenômenos da natureza do ambiente em que ele se coloca. E a partir desse ambiente, com todos os demais, em mais amplos espectros do ambiente, se quisermos: em rede. O rizoma de Deleuze/ Guatarry.
apresentação de Para Ledo Ivo no Universidança III foto:Glauber Xavier |
Desse simples estar do corpo toda uma rede de interlocuções com o espaço-tempo já estão em andamento. A nível do real e do virtual, a nível do concreto e do abstrato. O corpo é eminentemente material, isso, no entanto, não o limita a sua concretude. A carne ao se reconhecer carne num ambiente projeta sua própria existência, localização e temporalidade pra si mesma e ao fazê-lo imagina, é tomada por um fluxo de imagens, que desestabiliza seus estatutos de material hiper-concreto. Deseja o que projeta em imagens, e se coloca a cada instante em carne e forma expressiva desestabilizando também o ambiente – o fluxo espaço-temporal. A filosofia de Merleau-Ponty que o diga.
A experiência de consciência é o produto mais óbvio dessa comunicação.Ou, na experiência do existir do questionamento/desejo da carne (porque só sou nesse quando e nesse onde?) a existência do espaço-tempo e do corpo se desfaz, virtualiza. A própria concretude da carne é, portanto, sua mais clara abstração.