quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Texto-poema de Lica para nossa primeira vernissage

Eliana Kefalás foto João Evangelista

NOTAS SOBRE VIDEOS DOMÍNIO PÚBLICO
Eliana Kefalás Oliveira

SINFONIA PARA POMBOS – Trilogia Pequenos Contágios
O vento balança a música ou é a música que faz o vento mover-se?
Movimento parcial: o braço em cena espalhando nacos de pão
a bolsa branca em fatias
Quando vejo ela de costas, pergunto-me: é a sombra que fala?
as rodas dão a volta ao mundo
                e os rastros, vestígios do movimento, aparecem
marcas dos pombos e das rodas na areia
                                               é do vestígio que é feita a arte [OSAKABE – GRANGER],
do que é residual no contato com o mundo
Quando chega o silêncio, ainda há a música nos contornos dos nossos ouvidos
Segunda parte:
Ela deita-se no chão: corpo quase pombo
Agora ela não é mais uma só, é mais de uma, duas, dois corpos que se destacam no azul

um dá o pão
outro dança o dar o pão
Fluxograma: Vários documentos: des –dobra-mentosum contagia o outro
e a dança é o gesto,
a dança não se separa do gesto
ela se desdobra nele, ela é ele nas suas múltiplas possibilidades
o gesto quando se vê na dança descobre-se, desdobra-se, recobra-se
[Eu queria na cena ser o vento que sopra]
O azul para mim nunca será o mesmo
O detalhe é que aparece, o detalhe é o que aparece, é o que conta, narram-se episódios que não cabem em palavras, que não têm cabimento, não têm lógicas, são a força libertadora do sem sentido.
Afinal, para que serve a dança, para que serve essa dança, para que serve o vídeo que dança, videodança?
Dançar para quê? viver pra quê?
DANÇAR PARA NADA, DANÇAR PARA O NADA
PARA VIVER O NADA
nonada, onada, não há nada tão caro para vida de agora como o viver o nada,
na vidacorridacontraotempo não sobram horas nem auroras só se quer vitórias sobre a inglória
a pressa é o que interessa, o vencer o tempo, correr contra o tempo, safar-se por um momento,
às custas da injusta miséria humana
quem é que está atrás da câmera?
quero conversar com quem está atrás da câmera, que me engana e que faz meu olhar d repente ficar bacana
mesmo que eu recuse a cama, mesmo que eu queira a vida acobertada pela trama do jogo sacana
quero saber o que você faz com a lente, quer que eu fique ardente? Quer que eu saiba que o mundo mente?
quero saber quem é aquele que edita e dita pra mim o que se interdita
quero saber quem é que olha para o azul e me faz de repente todo nu
quero saber quem é que enquadra aquilo que não diz nada
quero saber o que quer comigo aquele que corta a cena e entorta o que me faz perigo
quero saber porque não quero mais saber nada
quero saber agora o que faço com a minha estrada
o que faço com a medida do olho, com a vida cronometrada
afasta de mim essa cor, esse vento, essa dor
essas linhas, esses panos, esses traços, tantos trastes
que não dizem nada
que não querem nada
que não tem mais parada
que lugar é esse que não é lugar algum que não é lugar de apenas um
esvaziar os sentidos das coisas para que as coisas – elas próprias –  apareçam?
o que está sob o meu domínio é o que me faz menino desde que eu me esqueça?
como é que pode uma cia. limitada em pleno domínio público?
tomaram o que é meu, sequestraram o eu
sobraram ciscos, migalhas

pegadas de pombos
sob o céu azul
mandaladança

 
a volta ao mundo ao redor de uma toalha


pegadas de pombos
sob o céu azul
mandaladança

 




inutensílio

A ditadura da utilidade
A burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil. Tudo tem que ter um para quê (...) O pragmatismo de empresários, vendedores e compradores, mete preço em cima de tudo. Porque tudo tem que dar lucro. Há trezentos anos, pelo menos, a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização. E o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é o dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza. (Leminski)



quer entender o que viu?
é melhor voltar pra casa
cantando com assobios

eu quero é todo o azul do mundo
dançar de pombo
pra desenhar o tempo na areia

meninááááá,
os seus braços
acordam as asas da gente?

quando na tela a música fez brisa nos seus seios você sentiu o quê?

das duas uma:
ou sou o vento
ou me reinvento.

dar adeus com o tecido azul
o que sente a bolsa fatiada quando encontra as rodas do carrinho dando volta na areia?
nada se encaixa nessa caixa que você carrega
esse caminho torto deixa meu olho ainda mais caolho



LIVRE INICIATIVA – Emerson Kennedy
Eu queria ser o nove que te encobre:
quem vê o nove novelando em você
pensa sem querer
o jeito dele se mover
é uma linha que se curva
                                                         dobrando a vida turva
as listras das camisas
vestem o corpo
e mudam de cor
nos bancos da praça

Eita números sortudos
chegam perto do seu umbigo
e quase descobrem seu maior perigo
é arte alagoana
arte que nos engana
faz dançar até os móveis imóveis
do lucro sacana que transforma tudo em grana



espelho, espelho meu
qual é o pente que não penteia
qual é o pano que nos arreia
qual a meia que esperneia
a bunda que redunda
a fita que me estreita
no carrinho
o caminho?





Insisto:
que risco
arisco!

pinta e borda
rola na rua
uma cor diferente
sangra a casa da gente
tinge de cor
a vida alheia
é a cara que nos encara

o risco
arrisca
o risco





2 comentários:

Emerson Kennedy disse...

MUITO OBRIGADO ELIANA KEFALÁS OLIVEIRA, VALEU MESMO JORGE,PELO CONVITE E PODER CONTAR CONOSCO PARA ESTE PROJETO... UM FORTE ABRAÇO A TODOS OBRIGADO POR ME PROPORCIONAR MOMENTOS QUE ESTÃO SENDO SIGNIFICANTE PARA O MEU TRABALHO ARTÍSTICO. ESPERO PODER ALGUM DIA CONTRIBUIR AINDA MAIS PARA OUTROS PROJETOS... VALEU CIA LTDA, PROJETO DOMÍCIO PÚBLICO...

Emerson Kennedy disse...

AGRADECIDO PELA HOMENAGEM ELIANA KEFALÁS OLIVEIRA, E A JORGE POR PODER NOS PRESENTEAR COM ESTE TRABALHO DANDO A OPORTUNIDADE DE MOSTRAR NOSSO TRABALHO ARTÍSTICO ATRAVÉS DESTAS PERFORMANCES. SOU MUITO GRATO A VOCÊ MEU AMIGO JORGE, POIS SABES O QUANTO FOI PRA MIM DIFÍCIL TRAVAR DENTRO DE MIM O QUE ACONTECEU NO MOMENTO DA GRAVAÇÃO... MUITO OBRIGADO POR COMPREENDER PELA PACIÊNCIA E PELO CONSELHO. UM FORTE ABRAÇO... TE ADORO MUITO...

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